5 de maio de 2017

OS QUERERES
Bom, há um assunto paradoxalmente polêmico: a legalização das drogas.
O paradoxo é que não existe razão para polêmica. Todos não somos por uma sociedade segura, pela paz, idealmente falando? Não queremos que acabem as guerras diárias nas favelas e periferias de todo o Brasil? Não queremos que as crianças vão e voltem da escola com segurança e os acidentes sejam apenas aqueles de menino caindo da laje porque está sonhando nas asas de uma pipa?
Não queremos, por acaso, que se acabe a sedução do tráfico sobre os meninos iludidos? Não queremos deter a corrupção na polícia?
Não queremos que a polícia pare de invadir casas e intimidar as pessoas?
Não queremos revisar as prisões de 130.000 pessoas, na maioria negras e pobres, porque portavam pequenas quantidades ou tiveram o flagrante forjado?
Não queremos que o Brasil cresça economicamente, e para isso use o grande potencial (terra e clima) para concorrer com a matriz?
Se até a Albânia - a Albânia !- criou emprego e renda com a maconha por que, ó Deus, não aprovamos a legalização das drogas?
Não queremos o pleno exercício dos direitos individuais?
Fico cismando. Mas não muito. A beleza do Brasil gerou seu
ônus: sofre de provincianismo crônico.

10 de abril de 2017

A TRAIÇÃO DA HEBRAICA


A Sociedade Hebraica do Rio de Janeiro, por meio do comunicado oficial que fez publicar em sua página, não convence.
Sob a desculpa de querer conhecer a "pluralidade de idéias" dos políticos, convidou o Deputado Jair Bolsonaro para fazer palestra, como se fosse necessário convidá-lo para ouvir as opiniões que há muito tempo ele não cansa de emitir, e por mais racistas e sexistas que sejam, ainda não encontraram nas autoridades alguém com coragem suficiente para prendê-lo, uma vez que estão protegidos por lei os direitos de mulheres, negros e índios..
O que não dá para entender é porque justamente a sociedade que congrega cidadãos judeus, cujos antepassados tanto sofreram com o Holocausto, seja justamente aquela que dê visibilidade e, evidentemente, apoio a uma criatura nefasta, tão intolerante, tão absurdamente violenta e arbitrária como um Hitler revivido.
Tivéssemos quem cumprisse a lei, Bolsonaro estaria cassado por injúria e difamação e preso por insuflar a população à violência e ao ódio contra aqueles que ele combate.
Imagino como se sentiram as mulheres presentes à "palestra" do Deputado Bolsonaro; se elas mesmas não estariam odiando seus maridos por obrigá-las a assistir, caladas, as ofensas de um inimigo.
Houve depois desse abominável evento uma manifestação de judeus que não aprovaram o convite. Mas aí era tarde. É preciso não deixar acontecer. É preciso lembrar que o Brasil, que sempre recebeu bem os imigrantes conviveu pacificamente com os judeus, foi traído por todos aqueles que aprovaram o "evento".
Não se sabe o motivo pelo qual, depois de tanto sofrimento, os judeus possam ter simpatia pela guerra e pela intolerância num país que os recebeu quando foram perseguidos e onde fizeram suas vidas.
Pode haver mais, atrás disso, não sabemos. Os negócios de armas andam em mãos que nem imaginamos. Mas sempre serão os mais lucrativos. Nunca houve, no Brasil, tantas armas fabricadas em Isrrael. Talvez seja fruto da velha história do "toma lá, dá cá".
Sobre isso não se sabe bem. O que se sabe é que a Sociedade Hebraica do Rio de Janeiro traiu o Brasil. Planejou, fez executar e ainda, mesmo depois das declarações escabrosas do Deputado (que devem ter sido recebidas como piadas pelo público conivente) ainda se justificou em nota, ao invés de se retratar.
Estamos, de fato, muito mal. Até aqueles que tratamos como amigos são hoje nossos inimigos. E se congregam para levar a cabo mais uma ditadura à la mode: violência, opressão e, é claro, negócios.

...

3 de abril de 2017

O REPOUSO

O REPOUSO
O homem acorda. Senta-se na beira da cama, coloca os óculos. Vai ao banheiro, barbeia-se. Está vestido e bebe um café de ontem. Olha pela janela. Há um sol armado. O homem tem 70 anos. Pega a pasta que está sobre a mesa. Vai enfrentar o dia. É um homem sério, este que fecha a porta e espera o elevador. Desce à rua e chama o táxi.
Tem encontro com o tradutor, tem almoço com a agente. Há uns textos a que gostaria de voltar, mas sobretudo, enorme, a pergunta sempre pronta: em quantas vezes, até os 70 anos, pensou sobre a morte, sua hora e suas formas, e em quantas vezes (todas as noites da sua vida) entregou-se a ela sem pudor e sem crença? Todas as noites uma morte possível, tremenda, desesperada. Terá sido o labirinto da noite que estancou a surpresa do novo dia? Mas ali está ele, o novo dia. E então levanta, barbeia-se, vai aos compromissos.
Agora é manhã e nada existe. Nem aquele movimento regular e sistemático: levantar, colocar os óculos, ir ao banheiro. Nada mais. Só a luz barrada pela cortina imóvel.
Assim, discreto, vai-se o escritor João Gilberto Noll.

1 de janeiro de 2017

Adeus 2016

2016 - deste não esqueceremos. Foi um terrível ano de frustrações e indignação com o golpe organizado. Vimos coisas e ouvimos outras que jamais pensaríamos. Assistimos as ofensas contra Dilma Roussef, sempre mais violentas porque se trata de uma mulher e o País é essencialmente machista e controlador. Acordamos em sobressalto, dormimos inquietos com os próximos desmandos, do qual participam juízes e Rede Globo. Depois de tudo ainda veio o pior - as medidas de um governo ilegítimo. desmontando o que diz respeito à educação, à cultura e ao trabalho, a que as Cortes assistem indiferentes e desdenhosas.
Tornamo-nos beligerantes orais e escritos. Rompemos relações, na maioria das vezes não por discordar ideologicamente, mas porque a informação é falha, é falsa, é pura farsa da mídia oficial.
O que nos pode salvar? A poesia, apenas.
Deixo-lhes aqui, amigos, o sonho do poema de Murilo Mendes, que eu já não sou capaz de sonhar mas que é, apesar de tudo, o
OFÍCIO HUMANO
(Murilo Mendes)
As harpas da manhã vibram suaves e róseas.
O poeta abre seu arquivo - o mundo -
E vai retirando dele alegria e sofrimento
Para que todas as coisas passando pelo seu coração
Sejam reajustadas na unidade.
É preciso reunir o dia e a noite.
Sentar-se à mesa da terra com o homem divino e o criminoso.
É preciso desdobrar a poesia em planos múltiplos
E casar a branca flauta da ternura aos vermelhos clarins do sangue.
Esperemos na angústia e no tremor o fim dos tempos,
Quando os homens se fundirem numa única família,
Quando se separar de novo a luz das trevas
E o Cristo Jesus vier sobre a nuvem,
Arrastando por um cordel a antiga Serpente vencida.

25 de outubro de 2016

PERDEU, PLEIBÓI


PERDEU, PLEIBÓI

Há algum tempo todos louvavam a eficiência das UPPs, a tranquilidade dos cidadãos, o acesso das crianças à escola. Claro que os jornais omitiam grande parte dos fatos, sintetizados no desprezo da polícia pelo favelado. O caso Amarildo foi o mais emblemático, o de tortura e morte por prazer.
Mas a coisa ia. Em m uitas comunidades cessaram os tiroteios. Os traficantes se retiraram para outros lubares ou foram para a milícia, onde convivem com policiais expulsos. O mercado de emprego está difícil.
E assim fomos vivendo, com o Secretário de Segurança José Maria Beltrame fazendo sempre as mesmas declarações: sem a presença de outros órgãos da prefeitura não seria possível controlar a situação por muito tempo. Não haveria UPPs para todas as favelas, mais de mil favelas. Mais de mil! Uma força de exército contida pela pobreza e pela violência. O appartheid.
Mas a prefeitura não está interessada na segurança do cidadão favelado e por isso não mandou os outros serviços de que o favelado precisa para se tornar cidadão.
O Secretário Beltrame entregou os pontos. Tal qual Elliot Ness, durante a lei seca nos Estados Unidos, depois da polícia matar um monte de gente e ainda abrir caminho para outros caminhos que beneficiaram a máfia.
Outra coisa que o Secretário fazia era afastar, quando era escandalosos demais, os policiais corruptos. Imagino o que seria nesse momento para ele, que tinha que brigar com uma força absolutamente corporativa e violenta. Algumas vezes conseguia. Nas outras, preferia acreditar nos falsos laudos.
A saída de Beltrame só provou o que já está mais do que provado. A guerra contra as drogas fracassou. Até a obsessão do Secretário Beltrame foi vencida. Penso nisso como sempre penso nas pessoas, no momento da sua derrota pessoal e profissional. Saber que é possível realizar um projeto e não vê-lo realizado porque foi feito de mentira, sem a intenção de que desse certo. Um imenso projeto de desocupação de traficantes das favelas acabou. Já era. Venceu a PM. Venceu o crime. As invasões começaram. No Alemão já são constantes os tiroteios. E não é só isso. Os asslatantes estão na rua. Andam de Honda, estacionam, roubam os passantes, embarcam em seu veículo e partem. Aumentou o número de assaltos a ônibus. O crime impera.
Eis no que deu a "guerra às drogas", conhecida como "guerra aos pobres" - mais um apito que os norte-americanos nos deram a partir dos seus tratados e negócios de chantagens "comportamentais". E ninguém quer pensar numa saída. Matar é bom. Resolve logo. Qualquer neguinho com dois baseados morre ou vai para a cadeia enquanto a cocaína anda de avião. A cadeia é o inferno em vida. As galés do navio negreiro. Mas não somos todos abolicionistas?
Será sempre assim? É isso?
Haverá anistia, retratação, indenização para as vítimas das drogas? Quantos morreram, quantos morrerão ainda enquanto policiais treinados para a tortura obedecem (e extrapolam no cumprimento) uma lei inócua e ultrapassada? E outra: que poderia, como qualquer outro investimento, trazer divisas?
Não vou trazer aqui todas as provas das novas formas de lidar com as drogas. Elas estão nos exemplos, livros, blogs, vídeos, cinima, mas milhões de pessoas estão na marginalidade por conta de leis obsoletas, geradoras de violência entre classes.
É uma prova de covardia dos poderes constituídos não reconhecer isso.
Essas perdas não se calculam em dinheiro.
Vou terminando. Na real, não sei como terminar. Dizer que no futuro, quem sabe? que milagres acontecem?
Está difícil de acontecer a legalização. Está difícil até do Brasil acontecer.
Muitos morrerão ainda nesta guerra civil que não quer dizer o nome.
Todos perderemos.

Não é assim que se constrói uma Nação.


17 de outubro de 2016

ASTRID CABRAL - 80 ANOS

A escritora Astrid Cabral completou 80 anos. Autora de uma obra importante, onde transita à vontade entre a poesia, o conto, o ensaio, a crítica e a tradução, é uma das maiores escritoras brasileiras, da estatura de Lygia Fagundes Telles ou Nélida Piñon.  Ou seria de Gilka Machado ou Henriqueta Lisboa?
Dezenas de pessoas, críticos de verdade (sabem o que eu quero dizer) já escreveram sobre a sua obra fundada na justiça e na liberdade. Nasceu poeta. E sábia.
Casou jovem com o também jovem e poeta Afonso Félix de Sousa, companheiro da vida inteira. Juntos levaram uma vida de amor e trabalho, e sobretudo de poesia para que os filhos se formassem íntegros e enfrentassem um mundo tantas vezes vil.
Astrid Cabral é uma poeta extraordinária e disciplinada que conhece e usa a fundo seus instrumentos. Como poderia, a professora que foi, não fazer o que tão bem ensinara? Poesia faz-se trabalhando. E Astrid atendeu a esse chamamento entregando-se resoluta à construção de sua prolífera obra.
O pessoal da Academia todo a conhece, tenho certeza. O que estarão esperando? Ainda discutem sobre até onde as mulheres podem ir?
Esperam por alguma graça? Será a morte uma graça? É verdade que ela talvez não aceitasse, É demasiado sincera, avessa a elogios fáceis. Mas isso não vem ao caso. O que vem ao caso é a falta de visibilidade merecida, até mesmo no momento em que completa 80 anos, sendo ela uma artista desse porte. E ainda mais: uma cidadã brasileira, que todos precisariam conhecer porque não se isenta de abordar temas tabus ou posicionar-se politicamente ante a hipocrisia do sistema. Talvez por isso seus pares relutem: criatura esquisita: mãe exemplar e poeta de excelência, não só possui o conhecimento do seu material de ofício mas tem o olhar original e crítico sobre as coisas do mundo. Que mulher é essa? Nós a queremos aqui?

Vivêssemos num país culto e civilizado haveria vários eventos programados em torno da autora. A imprensa, a reedição da obra, destaque nos suplementos literários. Mas não. Nosso País não é culto nem civilizado e vivemos um momento em que perdemos até a esperança dessa possibilidade.
É por isso que escrevo, minha querida poeta: para declarar que te admiro não só pela obra, mas pelo caráter, pela fidelidade às ideias que te sustentam, pela ausência de preconceitos e pela compreensão do mundo, que é sempre maior ao teu lado.

24 de junho de 2016

JESUEL MIRANDA - 80 ANOS

A velocidade dos acontecimentos que levaram o Brasil a essa enrascada política em que o golpe  se firma dia a dia, apesar das más escolhas e de decisões ainda piores, do pretenso presidente e sua gang, não nos dá tempo para quase nada. É sempre uma nuvem cinza e fria que paira sobre nossas cabeças como ameaças conspiradas enquanto dormimos.
Não obstante, vivemos a vida, amamos os amigos e a natureza e lutamos contra a corrente. Alguns correm mais. E há mais tempo.  É o caso de Jesuel Miranda, uma criatura que se destaca no universo das nossas afinidades porque é, de fato, um destaque. Foi, literalmente, destaque de Escola de Samba, desses que entram sozinhos porque o seu desempenho é notável e único, e para ele abre-se o espaço e a admiração. Destacou-se na pintura, na confecção de doces, no calor com que se oferece, sábio e bem humorado, tendo enfrentado como um herói da resistência a difícil vida do negro que se destaca.

O que importa, no entanto, e quero registrar aqui, como se fosse o meu diário de ocorrências especiais é a festa de aniversário com que o amigo Zezé Cunha reuniu os amigos de Jesuel.
Hoje é normal chegar aos 80. Mas o que aconteceu naquela noite é que todos estávamos velhos e Jesuel ressurgiu como há 20 anos, deixando-nos perplexos a pensar que a felicidade, que poucas vezes percebemos, havia se instalado ali, naquela festa, e rejuvenescido o aniversariante para que nós, e não ele, ganhássemos um presente, que era ele, inteiro, bonito, ágil, disponível com a mesma atenção e sorrisos para todos. Um estado de graça.
E não sou eu quem digo, apenas. Apenas relatado o que muitos sentiram e manifestaram.


Registro também as palavras que lhe dediquei na noite de 18 de junho, e das quais alguns convidados pediram cópia, juntamente com o poema.

"Fui convidada pelo organizador dessa festa, Zezé Cunha, para saudar o aniversariante, Jesuel Miranda, na comemoração dos seus 80 anos.
Aceitei, é claro. Com alegria e honra. Afinal, assinei também a apresentação no convite da primeira exposição individual de Jesuel, há mais de 40 anos, nesse  mesmo Hotel Manta em que nos encontramos agora. 
Mas depois tive receio. E agora? Como ser porta-voz de todas as pessoas que estãoaqui, da família, dos amigos, novos e antigos?
Como dizer a ele que mais do que celebrá-lo estamos celebrando a nós mesmos, porque o conhecemos, em algum momento da nossa caminhada?
Cada um tem uma visão particular de Jesuel, cada um de nós tem algo a dizer sobre ele; um episódio a lembrar, uma história de que foi testemunha. Mas algumas características, imagino, são reconhecidas por todos. Por isso penso que posso afirmar que:

Jesuel Miranda é um artista: da pintura, da dança, dos sabores da mesa;

que cresceu enfrentando toda a sorte de dificuldades impostas pelos preconceitos, antes mais do que hoje, mas ainda, numa luta sem fim;
que a tudo isso resistiu e resiste, e mesmo assim divertiu-se, diverte-se, e segue alimentando-se da arte.
As histórias que me contou foram motivo de alguns contos que escrevi. Também de um poema que nasceu depois de uma tarde de conversas, entre bolos e chás, quando ríamos das pequenas desgraças que nos afligem e que são sempre substituídas por outras.

O tempo passou. Éramos outros? Ainda somos nós.
Dos incômodos do tempo nos consolamos. Aceitar é preciso. Seguir, cair, levantar. Seguir o sonho acreditando nas pernas.

Por tudo isso,o querido, expresso aqui todo esse carinho multipliciado pelo da tua família, dos amigos presentes ou não que vivem em ti.



VIDA DE ARTISTA


não importa que eu não faça amor como antigamente
não importa que eu já não seduza
mas é bom que vez por outra alguém se encante
com quem sou

não tenho conta das vezes em que fui rainha
 no real palco das ruas
e se hoje o carnaval
vejo na TV
ainda há muito espaço para alegoria
que crio entre telas pincéis
e potes de ambrosia

os moços bonitos vejo de binóculo
para que não se intimidem
moços bonitos e feios
que eu sempre fui cristão

Vou à missa e canto minha sorte
Fome – eu sempre tenho -  de arte
Não gosto de polícia
Não gosto de bandido


Sofri o que era meu.
Agora
só entrego meu corpo
à glória

E vou terminando porque esse encontro dos nossos, na nossa terra, na nossa idade, véio, não é coisa recomendável. Recomendável é rir e aproveitar a vida que se oferece e fortalece nos abraços.

...